Chegou a minha vez!

Quantos homens poderosos...
empertigados em seus colarinhos;
numa inflação miraculosa
de prodígios e curas exorcistas.

Formam um cordão de gente,
em espaços bem delimitados.
Cercas assombradas se revelam,
em "criteriosa" teofania.

E com as suas tendas cheias,
abarrotadas de controle,
proclamam o seu chamado;
ouve-se o brado: fomos enviados!

E no alarido dos seres dóceis,
em anti-horário passo,
apontam ao derredor,
enamoram o Erário.

A cantar com homens febris,
ergue a mão o proxeneta;
e fitando a meretriz, diz:
chegou a minha vez!

O pranto clama pelas ruas...
e os mercadores em suas oficinas;
à sua semelhança, idolatram,
mancomunam-se em réplicas.

Sapateiros obstinados,
nada mais que seus calçados;
num réquiem de uma nota só,
cassam os pés dos "desviados".

E eu, um excomungado...
na peleja das tribulações,
a lidar com os gritos da carne,
em meio aos mortais.

Não sendo um dos iguais,
vivo o auge do cancelamento,
a piedade impiedosa,
ante à "rebeldia incrédula".

Noutra aglomeração,
assistindo ao desengano
muito além do cercado,
escorregando, tive medo.

Meus pés quase tropeçaram...
pois em plena iracúndia,
se eles descem, eu subo;
se atravessam, eu sigo a nado.

Não há sapato nem forma
que me tenha cabimento.
Acusado fui de um pecado mortal:
o de não olhar somente para o Alto.

Se não fosse a Misericórdia,
que jogou uma corda céu abaixo,
a noite seria um tormento,
o chão um grande laço.

Mas além dessa "teocracia",
veios de vida escorrem do Verbo,
em afluentes que banham a terra...
deixando marcas de humanidade. Graças a Deus!

Ver também a reflexão “Liberdade de expressão e discurso de 
ódio”: https://www.mauriciocastro.art/a-liberdade-de-expressao/

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