Um abraço inesquecível…

O tempo, decerto, teria pactuado com aquela cidade um cinza invariável… De todos os lados via-se a catedral gótica enunciar um tom vetusto, escuro desbotado, às vezes, encardido. A natureza não ousava destoar diante daquela obra dos homens. Tudo se encontrava em sintonia. A mim me pareceu que a própria vida naqueles recônditos resistia silente às margens do Rio Reno, como se não houvesse mais nada a ser pronunciado. Apenas contemplado. Naquela tarde de inverno o frio não se mostrava insuportável, mas exigia um certo respeito.

Caminhávamos na beira-rio à procura de um chip de internet móvel, que somente seria encontrado em um supermercado longínquo. Quanto mais nos afastávamos da área turística, Colônia ia se tornando a Köln dos alemães. Meu quarto filho, literalmente comprimido debaixo de agasalhos, ao avistar o píer, convidou o mais novo para um mergulho… Por um lapso, tive receio de uma possível aceitação em ato reflexo. Fitei as águas barrentas que transcorriam lentamente e a turbidez descortinou, aos meus olhos, uma feição lúgubre. Fiquei em dúvida se essa reação, a bem verdade, não teria sido por conta de minha proximidade com o cais. Quem sabe a acrofobia que me acompanha desde tenra idade não mostrara ali a sua face.

A cada passo, a atmosfera, o silêncio, a idade avançada dos citadinos e a indiferença iam desenhando um panorama coeso e homogêneo.  Um ar de resolução convencionada pairava no ambiente e exigia uma mudez mordaz e reticente. Talvez a regra ali fosse um combinado coletivo onde se deveria evitar um singelo entreolhar, de todo desconcertante. Se não fosse a juventude cintilante que, de quando em vez, projetava um sorriso, quem sabe, as pessoas passassem umas pelas outras sem deixar qualquer rastro, numa sinfonia anônima e solitária.

Como ali não se via sinais de miséria, em algum momento tive a falsa ilusão de me encontrar em um paraíso, onde os humanos se dirigiam para os espaços públicos em busca de se virem sozinhos, reclusos de todos os seus problemas ou anelados com eles de uma vez por todas. Havia um tom aparente de resignação nisso tudo.  Uma espiada no celular, raramente, suspendia essa lógica e quebrava aquele ritual que custava vencer o tempo. 

Chegamos ao destino, mas o supermercado já estava fechado. Caminhamos tanto até ali… eu já teria perdido os meus pés. Ao imaginar o retorno a contravento, lembrei-me de um bairro em Vitória da Conquista chamado “Pé Inchado”. Mas eu precisava ser firme para não desanimar a tropa, visivelmente abatida. Retornamos para a região do Museu do Chocolate e a Köln dos alemães ia ficando para trás… A presença de turistas, facilmente perceptível, começava a interferir no cenário pois o silêncio coloquial ia perdendo a sua métrica diante de uma profusão de vozes e sons. Decerto essa peregrinação interpelou a todos. As diferenças restaram manifestas. Os meus dois mais velhos chegaram a pronunciar a um só tempo: “como eles são diferentes… de nós!” Assim como Cortella, ocorreu-me aquele “será?”.

Enquanto isso, alguém já confabulava fazer uma travessia impensável e dar uma outra conotação àquela paisagem uníssona, embora monocórdica. O silêncio ensurdecedor das pessoas teria tocado o meu filho de 10 anos. A sua reação foi bem original. Inconformado com tantos ensimesmados, não mediu os riscos ou os possíveis desencontros. A alegria que jorrava dentro dele buscava outros afluentes; precisava desaguar e molhar alguns terrenos ressequidos, o que fez sem medo. Assistimos, assim, ao recato relacional bem peculiar àquela terra ser destroçado em momentos emocionantes e memoráveis, por quem perfez naturalmente, sem amarras, a arte do encontro fora de seu ninho, em terra estranha e distante, como se estivesse em casa.

Aquele que percebera o próximo como se fosse alguém bem chegado, teria, decerto, de ser uma criança cativante, desprendida e de olhar terno. Confesso que fiquei com o coração na mão. Cheguei a ponto de sentir de outras eras, a repreensão de meu pai, o cheiro da casa de minha primeira morada consciente, em Itajuípe, e o latido de Laika – a cadela que nos protegia do outro lado do rio, na “rua das pedrinhas”. É que eu não podia me exteriorizar como um ser buliçoso muito menos – ai de mim – “incomodar” qualquer ser vivente.

O meu caçula, entretanto, alterou os meus rumos compelindo-me a ressignificar a minha própria descrição narrativa. Tive coragem de vencer os meus ímpetos e descambei inerte. De fato, ele vergastou o ecossistema encontradiço, inovando a aura local de forma marcante. E tudo isso a partir de um ato inesperado que era recebido, pasmem os céus, com muita receptividade. Se ele intuísse que esse ou aquele transeunte precisava de um olhar, de um cumprimento, de um simples sorriso, ali estaria arrastando acenos fraternos indizíveis.

Os mais velhos, por óbvio, picados pela vespa do crescimento, já cumpriam rigorosamente a instrução que nos remete a dividir os espaços públicos cuidadosamente, para não atormentar os que buscam a solitude. Jamais se colocariam na contingência de atravessar as linhas limítrofes e imaginárias que nos separa dos desconhecidos, transformando-nos em uma família humana de entes distantes.  

O nosso infante, no entanto, entrava em cena e um abraço inesperado – que provocava um frio em minha barriga – era recebido de forma aconchegante seguido de uma expressão recíproca, emocionada, com se ali, alguém estivesse diante de algo precioso, há muito perdido, que de súbito fora achado. As línguas diferentes não pareciam limitar essa demonstração de amor. A aparente insensibilidade, por um lapso, situara-se nos mananciais do acolhimento.

Eu presenciei no interior do Museu do Chocolate, no Oeste da Germânia, algo marcante: o abraço de uma criança em uma senhora cadeirante que não sabia falar, a não ser o seu alemão, mas que muito disse com a linguagem do coração… Os seus faróis extáticos, inebriados de contentamento fitou-nos ternos em agradecimento, do outro lado do mundo.  

Já na saída, em meio às barracas de guloseimas, mais uma vez, sofri um chamado para reviver a minha infância, dessa feita, em meio aos descendentes de sírio-libaneses tão presentes na Itajuípe de outros tempos. Meu menino extrovertido abraçou um senhor com fisionomia familiar e ali, nasceu um (re)encontro com a minha história. Disse-me o libanês, com muita alegria, que as famílias por mim citadas, muitos daqueles sobrenomes continuavam pululando no Líbano. Em minha façanha infanto-juvenil, fui da Escolinha Cinderela de tia Lenida Abijaude (onde estudei), ao armarinho de seu Aziz, tão visitado nas manhãs de sábado – quando minha mãe fazia as vezes de costureira –, sem me furtar das iguarias maravilhosas de seu Abijaude, e dos tão sonhados e inacessíveis brinquedos da estrela, na loja Chalhoub, em Itabuna. Não me escaparam, também, as prosas graciosas e as farras com os meus amigos, os Midlej e os Hage – quanto a quem, segundo o meu mais novo chegado, seria El Hage, com um “r” gutural.

Sim, aquele abraço de meu pequeno tornou-se inesquecível e necessário…

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6 respostas a “Um abraço inesquecível…”

  1. Avatar de Miriam

    Muy lindo tu texto! Emocionante! Felicitaciones! Un gran abrazo de Ernesto y mío!

    1. Avatar de Maurício Castro

      Muchas gracias, Miriam e Ernesto. Es un placer tenerte aquí!

  2. Avatar de Marden Montargil
    Marden Montargil

    Maurício, muiiiito bom, boas memórias adorei

    1. Avatar de Maurício Castro

      Valeu, primo… Um abraço!

  3. Avatar de Cau Veríssimo
    Cau Veríssimo

    Estou a escrever um Ensaio da disciplina Brinquedo,Infância, Arte e Memória aqui da UFSB e seu texto me trouxe ânimo novo para continuar.Gratidão!!

    1. Avatar de Maurício Castro

      Obrigado, Cau… Fico feliz em saber que o texto provocou essa recepção. Muito agradecido. Vá em frente!

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